Mitos e verdades sobre a aids e as polêmicas cenas de “Malhação”

01/12/2016

 

 

As cenas sobre HIV/aids em “Malhação – Seu Lugar no Mundo”, da TV Globo, continuam repercutindo, após ONGs/aids e público da novela se manifestarem a respeito das primeiras abordagens do tema no seriado. Neste domingo (10), a “Capricho” publicou uma matéria, assinada por Isabella Otto, a respeito de mitos e verdades sobre o HIV e a aids e também entrevistou o infectologista Ralcyon Teixeira para esclarecer o caso. Leia a seguir:

 

Especialista comenta cena apresentada pelo seriado da Rede Globo e tira as principais dúvidas sobre a doença e o vírus.

 

Entre o final de 1999 e o início dos anos 2000, a 6ª temporada de Malhação discutiu um tema muito importante: Aids. Hoje, 16 anos depois, a história se repete, mas de uma maneira um tanto quanto diferente, que gerou polêmica.

 

 

Em “Malhação - Seu Lugar no Mundo”, Henrique (Thales Cavalcanti) é soropositivo desde que nasceu, mas ainda não havia contado nada para os amigos de colégio; até que um acidente ocorre durante uma aula de educação física (confira a cena completa aqui). Luciana (Marina Moschen) e ele, sem querem, acabam batendo cabeça com cabeça. Ocorre um pequeno sangramento e, por causa disso, o garoto decide abrir o jogo, para desespero da colega, que começa a tomar o coquetel antirretroviral, por causa da tal situação de risco.

 

Foi justamente aí que a polêmica começou. Muitos, como Lucinha Araújo, mãe do cantor Cazuza, que faleceu devido às complicações apresentadas pela aids, achou a cena dramática e errônea. "Depois de 30 anos de trabalho para combater o preconceito e informar corretamente as formas de transmissão do HIV, vemos um programa destinado ao público jovem aconselhar soropositivos a não praticar esportes, a mostrar um médico receitar medicamento antirretroviral numa situação onde dois jovens dão uma cabeçada é, no mínimo, de chorar", escreveu no Facebook.

 

 

O autor da novela, Emanuel Jacobina, em contrapartida, se defendeu dizendo que queria mostrar que mesmo em situações em que o risco de contágio é mínimo, ele ainda existe. Mas e agora? Será que existe certo e errado nessa história?

 

O número de jovens, entre 15 e 19 anos, infectados pelo vírus HIV aumentou consideravelmente nos últimos anos, segundo levantamento realizado pelo Unaids [Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids]. Por isso, a “Capricho” acredita ser de vital importância o debate sobre o assunto, de uma maneira correta. Entramos em contato com o doutor Ralcyon Teixeira, médico infectologista e supervisor do Pronto Socorro do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, para esclarecer o “Caso Malhação” e alguns mitos e verdades sobre o vírus e a doença.

 

Para o especialista, a ideia do autor foi interessante, mas a maneira como foi abordada, não. "É importante discutir o assunto, mas a situação mostrada deveria ser outra. No caso desse choque na aula de educação física, não há risco", opina Ralcyon, que explica que o sangramento ocorre depois do atrito, não havendo exposição contínua com o sangue infectado, diferente do que acontece em um acidente grave de carro em que uma das vítimas é soropositivo, por exemplo.

 

Em uma das cenas seguintes, Henrique dá a entender que vai deixar de praticar esportes, por medo de infectar alguém. Mais um equívoco, de acordo com o médico: "nós estimulamos que os soropositivos façam atividades físicas. Se a pessoa faz o tratamento direitinho, e, eventualmente, apresenta carga viral indetectável, mesmo nesses casos de acidente, as chances de contágio são bastante baixas", afirma.

 

Mitos e Verdades

 

1. HIV e aids são a mesma coisa.

 

Mito. Como explicado nessa matéria, a aids é uma doença causada pelo HIV, sigla para Vírus da Imunodeficiência Humana. Quando você contrai esse vírus, você se torna uma pessoa soropositiva. Mas isso não significa que você, necessariamente, tenha aids. O HIV destrói o seu sistema imunológico e se "alimenta" das células que defendem o seu corpo de infecções e doenças. Quanto mais o vírus se "alimenta" das suas células, mais vulnerável você fica. E é justamente aí que você pode contrair a aids, sigla para Síndrome da Imunodeficiência Humana, uma doença infecciosa grave que ataca de forma ainda mais agressiva o seu sistema imunológico.

 

2. Qualquer pessoa pode tomar o coquetel antirretroviral, também conhecido como PEP [profilaxia pós-exposição].

 

Verdade. Mas diferente da Pílula do Dia Seguinte, por exemplo, que pode ser tomada sem prescrição, o coquetel precisa necessariamente de indicação médica. O especialista vai avaliar o caso (será que você realmente se expôs a uma situação de risco?) e o custo benefício da profilaxia (vale a pena tomar o coquetel?). Afinal, não é apenas um comprimido e pronto. A pessoa deve tomar 3 comprimidos por dia, durante 28 dias, sendo que os 3 primeiros devem ser tomados em até 72 após a situação de risco.

 

3. Assim como a personagem Luciana, é normal tomar o coquetel e sentir algumas reações adversas.

 

Verdade. Algumas pessoas podem não ter reações à profilaxia, mas outras podem sentir náusea, indisposição, dor no corpo, e podem ficar com os olhos amarelados. Essas são as reações mais comuns.

 

4. Não é possível pegar o vírus durante o sexo oral.

 

Mito. Quem recebe o sexo oral, realmente, não corre nenhum risco. Contudo, a pessoa que faz pode, sim, ser infectada pelo HIV, presente nos fluídos liberados pelo corpo, que podem ser tanto o sêmen, quanto o líquido da pré-lubrificação. O risco é mais baixo do que quando há penetração, mas existe.

 

5. Beijo transmite aids.

 

Mito. Para começar, a pessoa se infecta pelo vírus, não pela doença (reler tópico 1). Além disso, segundo o doutor Ralcyon, às vezes, as pessoas querem abordar o tema de maneira drástica. Beijo não transmite HIV, porque o vírus não está presente na saliva. Assim como também não está presente no suor, na lágrima... "Ah! Mas e se eu estiver com um machucado na boca e a pessoa também?". O HIV está presente no sangue do soropositivo e, para haver infecção, é preciso ter um sangramento. Logo, tanto o seu machucado quanto o da pessoa precisam estar sangrando. É algo muito difícil de ocorrer.

 

6. A pessoa infectada apresenta sintomas.

 

Verdade. Porém, tais sintomas são de complicações causadas pela queda da imunidade, não pelo vírus em si. De acordo com Ralcyon Teixeira, algumas pessoas podem apresentar alguns sintomas de 4 a 6 semanas após o contágio, e eles são muito parecidos com os sintomas de uma gripe: febre, aumento dos gânglios, vermelhidão no corpo... Essa fase em que os sintomas iniciais se apresentam é chamada HIV Agudo. Entretanto, algumas pessoas podem não sentir nada. Nesse caso, o vírus só vai se manifestar bem depois, após uns 10 anos. É a fase seguinte, conhecida como Fase de Latência. O mais indicado é usar camisinha e se você estiver encanada, achando que viveu uma situação de risco, consulte rapidamente um médico. Quanto mais cedo o diagnóstico ocorrer, melhor. Mas, antes de qualquer coisa, proteja-se! Usar preservativo ainda é o método mais eficaz de prevenção!

 

7. Não existe diferença entre alguém que nasce HIV soropositivo e alguém que contrai o vírus depois.

 

Verdade. O que pode acontecer, em alguns casos, é que a pessoa que nasce com o HIV e não toma a medicação de maneira correta, pode desenvolver um vírus mais resistente. É a mesma coisa que acontece com pessoas que nunca tomam o antibiótico para dor de garganta corretamente - ou param antes, ou tomam em horários errados: o vírus acaba ficando mais forte.

 

8. O coquetel antirretroviral pode ser encontrado em qualquer lugar.

 

Mito. Quando você vive uma situação de risco e quer tomar a medicação para diminuir as chances de contrair o vírus (o coquetel é realmente bastante eficaz!), precisa ir até centros específicos de tratamento de aids, como o Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, por exemplo. A PEP, ou coquetel antirretroviral, é gratuito.

 

Fonte: Revista The Most 

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