'As famílias deveriam aceitar as pessoas como elas são': a casa que abriga LGBTs que não têm onde morar

02/02/2017

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Projeta visa acolher gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais (LGBTs) que, por algum tipo de conflito com a família, não têm onde morar

 

"Eu apanhei muito durante a infância por conta do meu jeito de ser. Quando fiz 18 anos, assumi para os meus pais que era gay e eles me mandaram embora. Ainda insisti em ficar, mas em 2013 decidi vir embora para São Paulo", conta a travesti Maria Leticia Ohana Costa, de 24 anos, a Manauara.

 

Exemplo do tipo de violência e intimidação que lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros muitas vezes sofrem por parte das suas próprias famílias, Manauara foi uma das cinco pessoas que conseguiram encontrar abrigo e acolhimento em uma iniciativa pioneira no bairro Bela Vista em São Paulo: a Casa 1, uma mistura de centro cultural com república LGBT.

 

Inaugurado no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, e localizada na rua Condessa de São Joaquim, na zona central da capital, o espaço tem como objetivo acolher pessoas que, por algum tipo de conflito com a família, não têm onde morar.

 

Idealizada pelo jornalista e relações públicas Iran Giusti, de 27 anos, a Casa 1 pode ser considerada um refúgio num país onde, segundo o Grupo Gay da Bahia - ONG que coleta e divulga dados sobre o tema -, a cada 25 horas um LGBT é assassinado, o que dá ao Brasil o título de campeão mundial em números absolutos de violência contra minorias de gênero.

 

Segundo dados de ONGs internacionais, mais da metade dos homicídios de trans do mundo ocorrem no Brasil.

 

Em um relatório divulgado semana passada, a ONG destaca que aqui mata-se mais homossexuais do que nos 13 países do Oriente e África onde há pena de morte para gays e lésbicas. Luiz Mott, de 70 anos, antropólogo e fundador da ONG, destaca que São Paulo é o Estado campeão em assassinatos nos últimos dez anos.

 

Foto Abaixo: Iran Giusti, criador do projeto, diz que casa é refúgio em meio à violência motivada pela intolerância

 

"Infelizmente, apesar das algumas políticas públicas, isso não tem sido suficiente para reverter o quadro de tantas mortes", afirma.

 

A ONG diz que os casos são subnotificados porque não há números oficiais de crime de ódio.

 

"Eu coleto dados há 37 anos por meio da mídia e de relatos pessoais que me passam, mas isso é prova da incompetência dos órgãos de segurança pública e direitos humanos", diz o antropólogo.

 

Os números têm crescido de forma preocupante. Foram 130 homicídios em 2000, com um salto para 260 em 2010 e para 343 em 2016.

 

A experiência do antropólogo se alinha com a de Giusti, que também considera que a falta de dados dificulta um retrato mais exato da situação das intimidações ou agressões sofridas pela comunidade. "É muito difícil saber o que está acontecendo exatamente - não temos classe social, nem idade, não há como traçar um perfil do LGBT expulso de casa", conta Giusti.

 

A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo afirmou estar implementando um sistema de informações para a coleta de dados sobre violações de direitos reportadas por usuários em dos Centros de Cidadania LGBT. "Hoje, nossos quatro centros contemplam cerca de 1.400 pessoas, com atendimento nas áreas jurídica, psicológica e de assistência social", afirmou a pasta por meio de nota.

 

Entre os dados empíricos que Giusti coleta, ele diz ter notado um forte aumento nos casos de "exorcismo" organizados por familiares e de automutilação - quando a pessoa agride o próprio corpo.

 

Também há casos de isolamento social, como, por exemplo, quando a família impede acesso a internet e telefone. "(Isso) acontece muito mais com as lésbicas", conta ele. "A família as isola, ficam de casa para a escola da escola para casa", conta.

 

Ele destaca a história de uma menina cuja família, após descobrir que ela era lésbica, a obrigava a comer somente o que sobrava após a refeição, e com talheres e pratos descartáveis. "Não vou dizer que isso me assustou, mas é inacreditável que ainda passamos por isso."

 

Os primeiros moradores

 

Foto abaixo:Cindy saiu e voltou para casa diversas vezes / Autor das fotos de Gui Christ/Gringo

 

Companheira de quarto de Manauara, a travesti Cindy Tobias da Silva, de 19 anos, chegou à casa com a roupa do corpo.

 

Cindy assumiu a transexualidade aos 14 anos e começou a se vestir de mulher. "Quando minha mãe descobriu que eu estava usando hormônios femininos, me disse que, se era para fazer isso, era melhor eu ir embora", conta.

 

Ela saiu e voltou para casa diversas vezes, morou com uma tia e depois em uma casa na zona norte de São Paulo, onde fazia programas. A dificuldade de conseguir um emprego é um segundo obstáculo crucial. "Só por eu ser trans eu já sou 'deletada'", diz.

 

A falta de aceitação pela família também levou Marcel Borges, de 26 anos, a ocupar uma das camas da Casa 1. O estudante nasceu mulher, mas nunca se identificou como uma. Os pais não souberam como lidar com a transformação física do filho.

 

"É como se fosse um luto, a pessoa que eu era está deixando de existir para dar voz ao Marcel", conta.

 

Foto abaixo:'Quando raspei o cabelo, vi que não tinha mais jeito e assumi o Marcel' / Autor das fotos de Gui Christ/Gringo

 

Borges buscou ajuda do Sistema Único de Saúde (SUS) e vai começar a tomar hormônios. "Quando raspei o cabelo, vi que não tinha mais jeito. Assumi o Marcel, também quero fazer a mastectomia (cirurgia de retirada dos seios)."

 

Ele relata os problemas que teve com a identidade social. "Já tive colegas de trabalho que se recusam a me chamar de 'ele'", conta.

 

Hoje, o jovem também é ativista da causa LGBT: "Nunca imaginei que fosse precisar desse tipo de ajuda, na real isso não deveria nem existir. As famílias deveriam aceitar as pessoas como elas são", fala.

 

Vaquinha online

 

Foto abaixo:'Autores do projeto conseguiram arrecadar R$ 112 mil em vaquinha na internet' / Autor das fotos de Gui Christ/Gringo

 

Foi com apoio de amigos e do namorado que Iran Giusti tornou a Casa 1 realidade, após uma campanha na internet que, em 42 dias, conseguiu arrecadar R$ 112 mil.

 

Toda a verba tem sido utilizada para pagar o aluguel e custos de alimentação dos moradores. "Eles vão cuidar da limpeza e da comida, mas vamos fornecer tudo e dar acesso total às atividades culturais", fala.

 

Foto abaixo:'Autores do projeto conseguiram arrecadar R$ 112 mil em vaquinha na internet' / Autor das fotos de Gui Christ/Gringo

 

 

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